Brasil e Cuba: novas perspectivas para biofármacos
Um encontro para entrar na História. Assim foi classificado o Seminário Técnico-Científico Brasil-Cuba de Biotecnologia, realizado na segunda semana de julho (nos dias 15 e 16/7), no Rio.
Planejado para discutir projetos de pesquisa clínica com foco no desenvolvimento e utilização de biofármacos de alta tecnologia, o evento, organizado pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, superou as expectativas e estabeleceu uma plataforma de trabalho binacional, com participação do INCA.
O objetivo é garantir, no futuro, o amplo acesso de pacientes dos dois países a esses medicamentos, a baixo custo.
A produção industrial de produtos biotecnológicos para o tratamento do câncer é reconhecida atualmente como área estratégica no acordo de cooperação científica assinado entre o Brasil e Cuba em 2004.
Segundo o diretor do Centro de Imunologia Molecular (CIM) de Cuba, Agustín Lage Davila, a importância dos anticorpos monoclonais (base do tratamento de tumores malignos e que interfere apenas nas células doentes), e das vacinas terapêuticas no arsenal de medicamentos eficazes dos oncologistas, num futuro próximo, será grande.
“Das cinco principais drogas para tratar tumores malignos, quatro são anticorpos monoclonais”, afirmou o médico cubano.
Estudos mostram que 80% da produção mundial de anticorpos monoclonais (mAb, na sigla em inglês) são consumidos exclusivamente nos Estados Unidos, 15% na Europa e apenas 5% pelo resto do mundo.
Cuba é o único país da América Latina que produz anticorpos monoclonais e a ideia central da cooperação entre o Brasil e a ilha caribenha, no campo, é fortalecer o desenvolvimento de mAbs, orientado mais pela necessidade social desses produtos do que por interesses mercadológicos.
“Isto garantirá o amplo acesso da população de ambos países a biofármacos de alta tecnologia”, destacou o diretor geral do INCA, Luiz Antonio Santini, que enxerga no acordo uma oportunidade para a saúde pública.
“É o desenho de projeto de futuro, incluindo o setor industrial público-público e público-privado. Uma experiência nova”, concluiu.
Novas estratégias clínicas - Com a presença de especialistas do INCA, Bio-Manguinhos (Fiocruz), Anvisa, e dos laboratórios Eurofarma e Libbs, além dos cientistas cubanos do CIM e do Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia (CIGB) foram discutidos 11 projetos de pesquisa clínica voltados ao tratamento de tumores malignos, para os quais a utilização de mAbs parece não ter limites.
O Nimotuzumab, por exemplo, desenvolvido em Cuba para combater tumor cerebral infantil, está sendo testado para ser aplicado também contra câncer de esôfago, câncer anal, câncer de colo do útero, etc.
O INCA, reconhecido por seu papel governamental na avaliação e aprovação desses projetos, promoverá fóruns de discussão entre as partes envolvidas dos dois países para analisar questões técnicas e uma política nacional de bio-similares em oncologia.
Quanto às vacinas terapêuticas, tanto o CIGB quanto o INCA têm estudos que serão submetidos a um intercâmbio bilateral de informações nos próximos meses.
Num cenário com tantas possibilidades, é importante estender a pesquisa dessas drogas além dos ensaios clínicos, limitados à política de mercado, e vinculá-la à prática oncológica comprometida com o atendimento da grande população.
Um dos desafios para incorporar produtos biotecnológicos ao sistema público de saúde é a redução de custos de produção, atualmente muito elevados.
Desafios que, segundo Santini, resultarão em grande responsabilidade para o INCA.”Esta plataforma tecnológica de trabalho conjunto vai significar no Instituto a modificação de seu modelo de investigação”, afirmou o diretor-geral.
Cubanos visitam o INCA – Em retribuição à visita feita pelos representantes do INCA a Cuba em março deste ano, os pesquisadores cubanos Agustín Lage Davila, diretor do CIM, e José Goicoechea, diretor do Pólo Científico de Cuba, aproveitaram o fim do seminário para conhecer as instalações do Instituto. Eles vieram acompanhados do representante da embaixada de Cuba no Brasil, Edissel Rosário.
Os integrantes da delegação cubana foram recebidos pelo diretor geral do INCA e conheceram diversos setores do Hospital do Câncer I e do Centro de Transplantes de Medula Óssea (CEMO), incluindo o laboratório de biologia molecular, e o Banco de Sangue de Cordão Umbilical e Placentário.
No Centro de Pesquisas do INCA, eles se reuniram com pesquisadores do Instituto para discutir as metas e os próximos passos da parceria entre o Brasil e Cuba na área da pesquisa oncológica.
“Nosso maior objetivo é unir investigação clínica controlada e o programa básico de controle do câncer voltado para a população e assim chegarmos a um modelo de excelência realmente efetivo”, disse Davila.
O chefe da Pesquisa Clínica do INCA, Carlos Gil, lembrou que um dos objetivos da cooperação científica com Cuba é incorporar, futuramente, institutos daquele país à Rede Nacional de Pesquisa Clínica no Brasil.(INCA - Ministério da Saúde)



